ESPAÇO LITERÁRIO
Porque me deste a mão e me guiaste
Na negra escuridão que me envolvia,
Porque a noite se fez em claro dia
Depois que em minha vida tu entraste,
Porque, nada pedindo, tu me deste
O que ninguém ainda já me dera,
Porque vieste, humilde, como a hera
E ao meu nada sem pejo te prendeste,
Porque de novo eu volto a ser criança,
Porque me sinto vivo e tenho esp'rança
Que a venda dos meus olhos cairá,
Deponho em tuas mãos meu coração
Que, enfim, prémio de amor e gratidão
Contigo e para ti só viverá!
Eu queria, só por ti, ser diferente
Do homem que hoje sou por má ventura
Envolto numa noite longa e escura
Andando sempre só por entre a gente.
Eu queria ser o arado que lavrasse
Esse teu corpo virgem de ternura,
Eu queria ser a fruta sã, madura,
Que os teus lábios famintos saciasse.
Eu queria ser a esp'rança que me habita,
Esta ânsia de vida que em mim grita,
O leve azul sem fim que nunca vi...
Ah! Eu queria ser tudo e não sou nada:
Mas há em mim um toque de alvorada
Porque este que 'inda sou é só por ti...
Rui Silvestre