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ANTÓNIO
FELICIANO DE CASTILHO Itinerário
Biográfico de um Escritor Cego [Grandes
períodos de uma cronologia castilhiana] 1800-1875 Vida
e Obra: Nasce
a 26 de Janeiro de 1800, em Lisboa, numa casa da velha Rua da Torre de S. Roque,
segundo filho e primeiro varão do médico José Feliciano de Castilho, ao
serviço da Corte como inspector de hospitais, e de Domitília Máxima da Silva,
matriz familiar de feição tradicionalista, devota e monárquica. Com 6 anos, inicia a instrução primária na «escola de
meninos» de mestre Eusébio; no imediato Inverno de 1806-1807, vítima de
violento contágio de sarampo, fica irreparavelmente cego. Todavia, esse desaire não o impediu de dedicar-se aos
estudos, fazendo-o com tal afinco que os familiares chegaram a vaticinar-lhe
um brilhante futuro intelectual. «ameno passeio na
alva da vida» 1801 – 1809: Infância repartida por Lisboa e seus arredores,
nomeadamente na casa dos Azulejos ao paço do Lumiar, ou no bucólico lugar de
A-da-Beja para onde a família se afasta por altura da entrada na capital dos
primeiros invasores franceses comandados por Junot. Entre 1810 e 1815 frequenta, com os irmãos Adriano e
Augusto, a Real Escola Literária do Bairro Alto, onde aprofunda os estudos de
latim e retórica; e, a partir de 1816, o Mosteiro de Jesus, onde frequenta
aulas de filosofia racional e moral. Com o apoio de seu irmão, Augusto Frederico de
Castilho, concluiu com êxito o curso secundário e ingressou na Faculdade de
Cânones de Coimbra. 1817 - 1826: Período universitário passado na região de Coimbra,
onde usufrui de benesses régias, conquanto estudante cego. Com ávida
participação em récitas públicas (nas quais distribui folhetos) e outeiros
estudantis (em particular os da «Sociedade dos amigos da primavera», por si
fundada, na Lapa dos Esteios à beira do Mondego), não deixa de polemizar em
famosas disputas arcádicas entre «bocagianos» (no seio dos quais se incluía)
e «filintistas». Entre a abundante produção poética, ditada ao irmão Augusto
- com quem estreita, doravante, forte ligação e alguma dependência -, ora
canta as auras da liberdade, ora o regresso do rei absoluto, a intimidade
solitária ou o amor distante, um receituário primaveril de grupo ou convictos
prazeres bucólicos. Esta produção literária, teve início com a publicação
das "Cartas de Eco e Narciso (1821), e "A Primavera" (1822), o
que lhe granjeou grande simpatia entre a massa estudantil coimbrã. 1827 – 1834: Após a formatura, instala-se em S. Mamede de
Castanheira do Vouga, em companhia de seu irmão Augusto, que abraçara a
carreira sacerdotal. Aí dispende o seu tempo, escrevendo poesia e traduzindo
autores clássicos. «neste ermo
ignaro, frio, mudo...» Semelhante a uma ascética reclusão, a estadia em
Castanheira do Vouga, em plena serra do Caramulo e perto do Buçaco, decorreu
longe e desfasada do mais crítico período liberal, que compreendeu o reinado
Miguelista e a guerra civil. O jovem poeta aprofunda o bucolismo poético e o
platonismo amoroso no interior patético de uma choupana que baptiza «templo
das musas», a par de estudos iniciáticos de registo romântico que irão
colocá-lo numa charneira entre o neoclassicismo e o ultra-romantismo. «o mundo tal qual
é» 1835 – 1846: Pronto a substituir os outeiros pelos salões, a
reactivar a uma imagem pública de notoriedade, a actualizar a participação
política de cuja realidade estivera afastado, o convívio mundano torna-o
representante activo e consagrado de uma mentalidade e de uma cultura
que procuram predomínio, a que não faltou a adesão à maçonaria.
Publica tudo o que tinha preparado antes, reúne e actualiza colectâneas,
acede à influência das revistas e jornais sobre um novo público, sem
esquecer a sua veia ininterrupta de tradutor. Daí a adesão ou nomeação para
inúmeras academias, arcádias, conservatórios e gabinetes; mas,
também, as primeiras polémicas e dissensões. Em 1841, depois de acompanhar o irmão à Ilha da
Madeira, instala-se em Lisboa e passa a dirigir a "Revista Universal
Lisbonense". 1847 – 1855: No prolongamento da fase anterior, a partida para Ponta
Delgada, iniciou uma cruzada que só terminará, contudo sem sucesso, no Rio de
Janeiro: o famoso método Castilho encontra ambiente na população rural da
ilha de S. Miguel, completando a actividade de pedagogo com propostas de Associação
Mutualista e de educação sócio-profissional. Regressado o poeta ao continente, entre polémicas e
aguerridas batalhas - por vezes verbalmente violentas -, a sua obra
pedagógica procura projectar a sua influência paternalista. Em 1855, visita o Brasil. Em 1865, provoca a "Questão Coimbrã" com sua
Carta-Posfácio", ao Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas, a que Antero
de Quental, achando-se visado, responde com a publicação de uma carta,
intitulada: "Falta de Bom Senso e Bom Gosto", o que origina uma
polémica, tendo-se nela envolvido escritores célebres da época, como: Teófilo
de Braga, Almeida Garrett e Ramalho Ortigão. "Falta de Bom Senso e de Bom Gosto". Subsídio para a biografia de António Feliciano de
Castilho no bicentenário do seu nascimento. Reflexões sobre uma carta de Antero de Quental a
António Feliciano de Castilho. Carta ao Exmo. Snr. António Feliciano de Castilho Exmo. Senhor, Acabo de receber um escrito de V. Exa., onde a
propósito de Faltas de Bom Senso e de Bom Gosto, se fala com áspera censura
da chamada escola literária de Coimbra, entre dois nomes ilustres se cita o
meu, quase desconhecido e sobretudo desambicioso. (. . . ) Estas circunstâncias pareceriam suficientes para me
imporem um silêncio, ou modesto ou desdenhoso. Não o são, todavia. Eu tenho
para falar dois fortes motivos. Um é a liberdade absoluta que a minha posição
independentíssima de homem sem pretensões literárias me dá para julgar
desassombradamente, com justiça, com frieza, com boa-fé. Como não pretendo
lugar algum, mesmo ínfimo na brilhante falange das reputações contemporâneas,
é por isso que, estando de fora, posso como ninguém avaliar a figura, a
destreza e o garbo ainda dos mais luzidos chefes do glorioso esquadrão. Posso
também falar livremente. (...) A este primeiro motivo, que é um direito, urna
faculdade, só, acresce um outro, e mais grave e mais obrigatório, porque é um
dever, uma necessidade moral. E esta força desconhecida que nos leva muitas vezes,
ainda contra a vontade, ainda contra o gosto, ainda contra o interesse, a,
erguer a voz pelo que julgamos a verdade, a erguer a mão pelo que
acreditamos, a justiça. E ela que me manda falar. Não que a justiça e a
verdade se ofendessem com V. Exa. ou com as suas apreciações.(...) O que se ataca na escola de Coimbra (talvez mesmo V.
Exa. o ignore, porque há malévolos inocentes e inconscientes), o que se
ataca, não é uma opinião literária menos provada, uma concepção poética mais
atrevida, um estilo ou uma ideia. Isso é o pretexto, apenas. Mas a guerra,
faz-se à independência irreverente de escritores, que entendem fazer por si o
seu caminho, sem pedirem licença aos mestres umas consultando só o seu
trabalho e a sua consciência. A guerra faz-se ao escândalo inaudito duma
literatura desaforada, que cuidou poder correr mundo ser o selo e o visto da
chancelaria dos grão-mestres oficiais.( . . . ) Combatem-se os hereges da escola de Coimbra por causa
do negro crime de sua dignidade, do atrevimento de sua rectidão moral, do
atentado de sua probidade literária, da imprudência e miséria de serem
independentes e pensarem pelas suas cabeças. E combatem-se por faltarem às
virtudes de respeito humilde às vaidades omnipotentes, de submissão estúpida,
de baixeza e pequenez moral e intelectual. V. Exa. com a imparcialidade que todos lhe conhecemos,
deve confessar que uma guerra assim feita, é não só mal feita, mas também
pequena e miseravelmente feita. Mas é que a Escola de Coimbra cometeu
efectivamente alguma coisa pior do que um crime - cometeu uma grande falta.
Quis inovar! Ora, para as literaturas oficiais, para as reputações
estabelecidas, mais criminoso do que manchar a verdade com a baba dos
sofismos (... ) é essa falta de querer caminhar por si, de dizer e não
repetir, de inventar e não de copiar. Porquê? Porque todos os outros crimes
eram contra as ideias: Haveria sempre um perdão para eles. Mas esta falta
eram contra as pessoas: e essas faltas são imperdoáveis. (. . . ) V.Exa. fez-se chefe desta cruzada tão desgraçada e tão
mesquinha. Não posso senão dar-me os pêsames por tão triste papel. Mas se eu,
como homem, desprezo e esqueço, como escritor é que não posso calar-me;
porque atacar a independência do pensamento, a liberdade dos espíritos, é não
só ofender o que há de mais santo nos indivíduos, mas é ainda levantar mão roubadora contra o património sagrado da
humanidade - o futuro -. É secar as nascentes da fonte aonde as gerações
futuras têm de beber. É cortar a raiz da árvore a que os vindoiros tinham de
pedir sombra e segredo. (. . .) Para isso toda a independência de espírito,
toda a despreocupação de vaidades, toda a liberdade de jugos impostos, de
mestres, de autoridades, nunca será de mais. O mineiro quer os braços soltos
para cavar buscando o ouro entre as areias grossas. O piloto quer os olhos
desvendados para ler nos astros o caminho da nau por entre as ondas incertas.
O sacerdote quer o coração limpo de paixões, de interesses, para aconselhar,
guiar, julgar, imparcial e justo. O escritor quer o espírito livre de jugos,
o pensamento livre de preconceitos e respeitos inúteis, a cotação livre de
vaidades, incorruptíveis e intemerat ra, que ilude o vulgo, e desprezam a
ideia, que custa muito e nada luz. São apóstolos do dicionário, e têm por
evangelho um tratado de metrificação. Fazem da poesia o instrumento de suas
vaidades. Pregam o bem por uso e convenção literária, porque se
presta à declamação poética, mas praticam o egoísmo por índole e por vontade. Estes tais escusam da nobreza e da dignidade: têm a
habilidade e a finura, para a obra que fazem, isso lhes basta. Mas a obra,
Exmo. Snr., é que é uma obra vulgar: bem feita para agradar ao ouvido, mas
estéril para o espírito. Soa bem mas não ensina nem eleva. Ora a humanidade
precisa que a levantem e que a doutrinem. São, pois, necessárias outras e melhores obras. (...) O grande espírito filosófico do
nosso tempo, a grande criação original, imensa da nossa. idade, não passa de
confusão e imbróglio desprezível para o professor de ninharias, que cuida,
que se fustiga. Hegel, Stuart Mill, Augusto Compte, Herder, Wolff, Vico,
Michelet, Proudhon, Litré, Feuerbach, Creuzaer, Strauss, Taine, Renan,
Buchner, Quinet, a filosofia alemã, a crítica. francesa, o positivismo, o
naturalismo, a história, a metafísica, as imensas criações da alma moderna, o
espírito mesmo da nossa civilização... que se fustiga tudo isto e se
ridiculariza e se derriba com a mesma sem-cerimónia com que ele dá
palmatoadas nos seus meninos de 30, 40, 50 anos, de Lisboa, do Grémio, da
Revista Contemporânea de Lisboa, do Grémio, da Revista Contemporânea! (...) Há uma coisa que o Snr. Castilho tomou à sua conta, que
não deixa em paz, que nos prometeu destruir ... é a metafísica é o ideal ... O ideal quer dizer isto: desprezo das vaidades- amor
desinteressado de verdade; preocupação exclusiva do grande e do bom; desdém
do fútil, do convencional; boa-fé; desinteresse, grandeza de alma;
simplicidade; nobreza; soberano bom gosto e soberaníssimo bom senso . .. tudo
isto quer dizer esta palavra de cinco letras - ideal. (. . . ) Paro aqui, Exmo. Snr. muito tinha eu ainda que dizer:
mas temo no ardor do discurso, faltar ao respeito a V. Exa., aos seus cabelos
brancos. (...) V.Exa. aturou-me em tempo no seu colégio do Pórtico
tinha eu ainda dez anos e confesso que devo à sua muita paciência o pouco
francês que ainda hoje sei. (...) Vejo, porém, com desgosto que temos muitas vezes de
renegar aos vinte e cinco anos, do culto das autoridades dos dez. (. . .) Levanto-me quando os cabelos brancos de V. Exa. passam
diante de mim. Mas o travesso cérebro que está debaixo e as garridas e
pequeninas coisas que saem dele confesso, não me merecem nem admiração nem
respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a
gravidade numa criança. V.Exa. precisa menos cinquenta anos de idade, ou
então mais cinquenta de reflexão. É por estes motivos todos que lamento do
fundo da alma não me poder confessar, como desejava, de V.Exa. nem admirador
nem respeitador Antero de Quental. Coimbra, 2 de Novembro de 1865 «diante das
apaixonadas e bulhentas harmonias» 1856 – 1875: Após a morte de Garrett e o exílio de Herculano para
Vale de Lobos, chama a si um magistério intelectual sobre a jovem geração
que, partindo da revista de poesia "O Trovador", julga radicar o
seu ultra-romantismo no autor de "Os Ciúmes do Bardo" e de "A
Noite do Castelo", e encontra na casa deste, a «sua Tíbur», o centro
difusor. Transforma este convívio em uma «Sociedade do elogio mútuo» e leva
aos limites a promoção de um nacionalismo poético - a que não escapa a
própria obra, então ampliada e diversificada, de tradutor. O auge da sua
influência é o também da própria decadência: contestado, envolve-se em duras
e sucessivas polémicas com uma outra e novíssima geração, de que a célebre
«Questão Coimbra» representa o princípio do fim, não sem a sagração oficial
com título de Visconde. Cercado de glória e do carinho de seguidores fiés,
faleceu em 1875, em Lisboa. Obras Principais: Cartas de Eco e Narciso (1821); A Primavera (1822); Amor e Melancolia (1828); A Chave do EnigmaA Noite do
Castelo (1836); Os Ciúmes do Bardo (1836); A Felicidade pela
Agricultura (1849); Erro! Marcador não definido.Presbitério da Montanha (1844); Quadros da História de
Portugal (1838); O Outono (1863); Cartas de Eco e Narciso. Num ritmo pretensamente pagão, revelam a influência do
neoclassicismo que dominava entre nós ao tempo da primeira vitória liberal.
Doravante, a grande importância de Castilho consistirá em exercer um vasto
magistério literário, assimilando e exprimindo oportunamente as modas e as
correntes publicamente mais viáveis. "Amor e Melancolia" Afastado do palco das operações onde se desenrolava a
contra-revolução Miguelista e as lutas liberais, refugiado numa recôndita
freguesia da beira, onde o irmão era pároco, conseguiu encontrar o tão
almejado sossego, propício à reflexão e à escrita. De um longo namoro, que em 1834 se consumou pelo
casamento, extraiu o melhor de um livro de pequenas peças líricas
sentimentais pré-românticas: Amor e
Melancolia (1828). Entretanto, capta no ar os novos gostos literários;
assimila a métrica, o estilo de Camões e D. Branca, os ambientes de
fantasmagoria e truculência cavaleiresca da novela inglesa ou do melodrama e
escreve Os Ciúmes do Bardo e a Noite do Castelo,
que, juntamente com o projectado Ermitão da Arrábida, constituiriam a
trilogia da paixão, da paixão amorosa ultra-romântica, rematando no crime, no
suicídio ou na loucura. A publicação dos dois poemas em 1836 parece ter
contribuído, juntamente com as traduções de Walter Scott, dos pré-românticos
franceses, ingleses, alemães e com as novelas de Herculano, para a difusão
entre nós do ultra-romantismo medievista. Neste mesmo ano e sob o novo clima da Revolução
Setembrista, traduz e prefacia com acentos de republicanismo Palavras de um
Crente de Lamennais, obra cujo estilo Herculano imitou na Voz do Profeta e
que tanto contribuiu para ligar ao cristianismo as tendências humanitárias do
romantismo liberal. Esta fase em que Castilho, literariamente sob a
influência de Herculano, assimila a corrente romântica, numa versão
sentimentalmente formalista, remata com os Quadros Históricos de Portugal
(1839). Descreve em estilo pretensamente rico, vernáculo,
filintista, grandes figuras medievais portuguesas, os seus actos mais ou
menos lendários de alta bizarria heróica e moral. A morte da primeira esposa e do desvelado irmão Augusto
marca uma pausa na sua carreira literária, que mudara de rumo. A partir
de1842, a direcção da Revista Universal Lisbonense, uma das mais importantes
da nossa época romântica, permite-lhe exercer uma influência considerável,
que transborda dos meios restritamente literários. Essa influência vai
inteiramente ao encontro da reacção tradicionalista que então se fazia sentir sob os Cabrais; a revista arvora-se em guardiã dos bons
costumes, da moralidade e de um temperado eclectismo literário que se arrima
aos clássicos eternos. É talvez ao prestígio assim alcançado e ao cunho
anódino da sua obra que se deve a homenagem prestada em 1844 pelo grupo de
jovens líricos de Coimbra que colaboravam em O Trovador, sob orientação de João de Lemos. Castilho reforça esta reacção classicizante com a
edição das suas Escavações Poéticas (1844),
que do Romantismo retêm apenas o gosto dos temas folclóricos e de uma certa
expressão directa, e com a colaboração que presta ao irmão José numa
antologia que este dirige no Brasil, a Livraria Clássica Portuguesa. Em 1846
ridiculariza os movimentos populares com uma Crónica certa e muito verdadeira
da Maria da Fonte. ESCAVAÇÕES POÉTICAS
Miro-me, olhos pretos A FELICIDADE PELA
AGRICULTURA A crise do cabralismo e a revolução europeia de 1848
vão encontrá-lo em S. Miguel. Surge-nos então outro
Castilho: o Castilho utopicamente progressivo membro influente da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, redactor
de O Agricultor Micaelense, cujos artigos, editados depois
em volume sob o título de Felicidade pela Agricultura
(1849), pregam as excelências do trabalho agrícola, a
fraternidade agrária entre as classes sociais, a fundação de sociedades de
agricultores que tivessem como primeiro objectivo a instrução e a organização
do crédito mutualista assentando sobre tais bases uma reforma do País, que
abrangeria o exército, o próprio regime representativo partidário, a
jerarquia religiosa, eliminaria a inferioridade política e civil das
mulheres, etc. Tudo isto sem detrimento das instituições políticas e religiosas vigentes, antes
delas obtendo a devida vénia e apoio... Traduções: Dedicou-se à tradução de obras em latim, francês e
inglês tais como: A Lírica, de Anacreonte; Amores, de Ovídio; Geórgicas, de Virgílio; Médico à Força, TartufoO
Avarento, Doente de Cisma, Sabichonas e Misantropo, de Molière; O Sonho de uma Noite de
Verão, de Shakespeare; Fausto, de Goethe; D. Quixote de La Mancha, de Cervantes. A CHAVE DO ENIGMA O tema da solidão, tão actual nos nossos dias é aqui
abordado, oferecendo-nos uma visão positiva, como espaço
privilegiado, propício à reflexão, numa comunhão perfeita entre o Homem e a
Natureza. Citação: Que admira? A solidão medita, e a meditação cria. Os
sentidos pastam só no que lhes oferecem a natureza, a fortuna, o acaso: a
divindade interior, a alma, tem comércios inefáveis com o íntimo e ignorado.
S. João, entre os nevoeiros de Patmos, divisa uma Jerusalém celeste; nas
cogitações de Sócrates, aparece o Omnipotente; nos êxtases de Platão.
reflexos da Trindade; nos cálculos taciturnos de Galileu, firma-se o céu,
volteiam as plantas: Colombo faz surgir do fundo dos mares a América;
Leverrier, mais globos no espaço; Fulton, o hipógrafo, o Pégaso do vapor,
magia, poesia, potência escrava do Homem, e dominadora, primeiro dos oceanos,
depois dos continentes e amanhã, talvez, dos ares; a solidão cismadora dá a
Eneida a Virgílio, mostra a Lineu os amores e o sono das plantas, a Dante o
Inferno, a Fourier o paraíso terrestre, a Newton e a Laplace o código dos
astros, a Daguerre os talentos artísticos do Sol, ao Gama o caminho do
Oriente, ao soldado Camões o da imortalidade, põe na mão de Gutembergue a
chave do cofre das ciências, na de Vicente de Paulo a da caridade, na de Say
a da riqueza pública, na de Pestalozzi e Froebel a da escola séria e fecunda.
Arquimedes, a sós com a natureza e com o seu génio,
descobre os meios de destruir e incendiar a frota romana. Absorto em suas
reflexões criadoras, no seu gabinete, como num antro, não sente o estrondo da
cidade, já senhoreada dos inimigas; não acorda à voz do soldado de Marcelo,
que, de espada desembainhada, lhe ordena que o siga; sem o sentir, é
degolado. Cai a grande cabeça, irmã entre irmãs, no meio das esferas celestes
que está arquitectando. Só de tão extraordinária concentração podiam brotar
os seus tão extraordinários inventos e descobrimentos. Lavoisier, outro dos martirizados pelo materialismo
descrente e brutal, depois de haver testado ao mundo a mais opulenta herança
científica, condenado ingrata e cegamente á guilhotina, que é o que pede aos
verdugos revolucionários, seus juízes? Uma dilação de quinze dias. Só uma
dilação! Só de quinze dias! Para quê? Para concluir trabalhos úteis à
Humanidade, que neste momento o desconhece. Rematados eles, já não terá pena
de morrer. Recusam-lha. Então, caminha, sereno, a depor no cadafalso uma
cabeça, maior, talvez. que a de Arquimedes, e ainda na véspera coroada de
loiros pelo Liceu. Tanto a actividade fecundante, recolhida por instinto
para os penetrais mais sagradas do ânimo, donde se conversa em êxtases com
Deus e com a Natureza, com o pai omnipotente e com a filha formosíssima,
nossa irmã, fica inacessível aos maiores cataclismos externos, às catástrofes
das Siracusas, ao caos, providencial, porém medonho, de uma revolução
francesa! O homem que nasce pertencente à escassa família deste
naturalista, pai da química, e daquele geómetra, pai da mecânica, mesmo com
os braços cruzados sobre o peito, mesmo com os olhas fechados, mesmo dormindo
e sonhando, está servindo como operário; mas, abaixo dele, há ainda, não
menos veneráveis, os prestigiosos cismadores do mundo da Arte, mundo não
menor, nem talvez, em última análise, menos útil que o da Ciência. André Chénier, espécie de Lavoisier da poesia,
convocado também para o festim da morte, não é das prazeres efémeras da
existência que leva saudades: bate apaixonadamente raivoso na fronte, porque
sente que se lhe estava ali dentro formando, como em cérebro olímpico, uma
nova musa gentilíssima. Quem lha revelara? A meditação solitária, que sabe
tudo e tudo profetiza. Boníssima solidão! Tu és para a Sociedade o que as tuas
montanhas são para os vales: nas tuas entranhas se filtram. dos teus
recôncavos rebentam os génios possantes e profundos que vão derramar por
longe a fertilidade. Mas tu não és só mãe às torrentes caudais: uma fontinha
entre lapas, desconhecida, não se goza menos do teu favor. Sobre o pouco
liberalizas dons, como sabre o muito; próvida para o imenso, próvida para o
limitada. Solidão, Egéria das almas eleitas! Solidão, buscada por Cristo,
abraçada por Jocelyn, adorada por Petrarca, explorada em tuas minas de oiro por
Zimmermann, inspiradora de Volney, de Rousseau, do Infante de Sagres, de
todas as videntes, de todos os descobridores, de todos os inventores, de
todos os Baptistas! Solidão, ninho das rolas como das águias, perdoa, se eu
não sabia ainda apreciar-te!" Em conclusão: "Uma peregrinação pelas obras do
"Mestre" António Feliciano de Castilho leva-nos à perplexidade
sobre a versatilidade da inteligência e espírito desse homem de letras que
podemos classificar de artista. Se no seu tempo estivesse na moda a palavra
"sobredotado" seria António Feliciano de certo assim classificado. Não podemos referenciar obras, pois todas elas se
baseiam num estilo próprio e único. A actualidade dos temas e diversificação
são admiráveis. Tão depressa observamos Castilho a vergar-se sobre a
Instrução, como a Arquitectura, como a Ciência de Métrica, como a estudar
métodos para facilitar a Instrução a quem quer aprender, como louvando Reis e
Princesas, como lutando contra os Políticos seus contemporâneos, expondo as
suas ideias e pugnando por elas, como sonhando romanticamente e cantando os
seus sonhos através de poesia difícil e por vezes mal interpretada. Mas um clima de esperança sempre o envolveu, rodeando-o
de uma luz, que o destino arrebatou." Queremos com este singelo trabalho homenagear o grande
vulto das letras e da cultura portuguesa que foi António Feliciano de
Castilho e simultaneamente, regozijar-nos por termos ao nosso dispor um tão
rico e variado espólio literário. |
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