ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO

Itinerário Biográfico de um Escritor Cego

[Grandes períodos de uma cronologia castilhiana]

1800-1875

Vida e Obra:

         Nasce a 26 de Janeiro de 1800, em Lisboa, numa casa da velha Rua da Torre de S. Roque, segundo filho e primeiro varão do médico José Feliciano de Castilho, ao serviço da Corte como inspector de hospitais, e de Domitília Máxima da Silva, matriz familiar de feição tradicionalista, devota e monárquica.

Com 6 anos, inicia a instrução primária na «escola de meninos» de mestre Eusébio; no imediato Inverno de 1806-1807, vítima de violento contágio de sarampo, fica irreparavelmente cego.

Todavia, esse desaire não o impediu de dedicar-se aos estudos, fazendo-o com tal afinco que os familiares chegaram a vaticinar-lhe um brilhante futuro intelectual.

«ameno passeio na alva da vida»

1801 – 1809:

Infância repartida por Lisboa e seus arredores, nomeadamente na casa dos Azulejos ao paço do Lumiar, ou no bucólico lugar de A-da-Beja para onde a família se afasta por altura da entrada na capital dos primeiros invasores franceses comandados por Junot.

Entre 1810 e 1815 frequenta, com os irmãos Adriano e Augusto, a Real Escola Literária do Bairro Alto, onde aprofunda os estudos de latim e retórica; e, a partir de 1816, o Mosteiro de Jesus, onde frequenta aulas de filosofia racional e moral.

Com o apoio de seu irmão, Augusto Frederico de Castilho, concluiu com êxito o curso secundário e ingressou na Faculdade de Cânones de Coimbra.

1817 - 1826:

Período universitário passado na região de Coimbra, onde usufrui de benesses régias, conquanto estudante cego. Com ávida participação em récitas públicas (nas quais distribui folhetos) e outeiros estudantis (em particular os da «Sociedade dos amigos da primavera», por si fundada, na Lapa dos Esteios à beira do Mondego), não deixa de polemizar em famosas disputas arcádicas entre «bocagianos» (no seio dos quais se incluía) e «filintistas». Entre a abundante produção poética, ditada ao irmão Augusto - com quem estreita, doravante, forte ligação e alguma dependência -, ora canta as auras da liberdade, ora o regresso do rei absoluto, a intimidade solitária ou o amor distante, um receituário primaveril de grupo ou convictos prazeres bucólicos.

Esta produção literária, teve início com a publicação das "Cartas de Eco e Narciso (1821), e "A Primavera" (1822), o que lhe granjeou grande simpatia entre a massa estudantil coimbrã.

1827 – 1834:

Após a formatura, instala-se em S. Mamede de Castanheira do Vouga, em companhia de seu irmão Augusto, que abraçara a carreira sacerdotal. Aí dispende o seu tempo, escrevendo poesia e traduzindo autores clássicos.

«neste ermo ignaro, frio, mudo...»

Semelhante a uma ascética reclusão, a estadia em Castanheira do Vouga, em plena serra do Caramulo e perto do Buçaco, decorreu longe e desfasada do mais crítico período liberal, que compreendeu o reinado Miguelista e a guerra civil. O jovem poeta aprofunda o bucolismo poético e o platonismo amoroso no interior patético de uma choupana que baptiza «templo das musas», a par de estudos iniciáticos de registo romântico que irão colocá-lo numa charneira entre o neoclassicismo e o ultra-romantismo.

«o mundo tal qual é»

1835 – 1846:

 

Pronto a substituir os outeiros pelos salões, a reactivar a uma imagem

pública de notoriedade, a actualizar a participação política de cuja

realidade estivera afastado, o convívio mundano torna-o representante

activo e consagrado de uma mentalidade e de uma cultura que procuram

predomínio, a que não faltou a adesão à maçonaria. Publica tudo o que

tinha preparado antes, reúne e actualiza colectâneas, acede à influência

das revistas e jornais sobre um novo público, sem esquecer a sua veia

ininterrupta de tradutor. Daí a adesão ou nomeação para inúmeras

academias, arcádias, conservatórios e gabinetes; mas, também, as primeiras

polémicas e dissensões.

Em 1841, depois de acompanhar o irmão à Ilha da Madeira, instala-se em Lisboa e passa a dirigir a "Revista Universal Lisbonense".

1847 – 1855:

No prolongamento da fase anterior, a partida para Ponta Delgada, iniciou uma cruzada que só terminará, contudo sem sucesso, no Rio de Janeiro: o famoso método Castilho encontra ambiente na população rural da ilha de S. Miguel, completando a actividade de pedagogo com propostas de Associação Mutualista e de educação sócio-profissional.

Regressado o poeta ao continente, entre polémicas e aguerridas batalhas - por vezes verbalmente violentas -, a sua obra pedagógica procura projectar a sua influência paternalista.

Em 1855, visita o Brasil.

Em 1865, provoca a "Questão Coimbrã" com sua Carta-Posfácio", ao Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas, a que Antero de Quental, achando-se visado, responde com a publicação de uma carta, intitulada: "Falta de Bom Senso e Bom Gosto", o que origina uma polémica, tendo-se nela envolvido escritores célebres da época, como: Teófilo de Braga, Almeida Garrett e Ramalho Ortigão.

"Falta de Bom Senso e de Bom Gosto".

Subsídio para a biografia de António Feliciano de Castilho no bicentenário do seu nascimento.

Reflexões sobre uma carta de Antero de Quental a António Feliciano de Castilho.

Carta ao Exmo. Snr. António Feliciano de Castilho

Exmo. Senhor,

Acabo de receber um escrito de V. Exa., onde a propósito de Faltas de Bom Senso e de Bom Gosto, se fala com áspera censura da chamada escola literária de Coimbra, entre dois nomes ilustres se cita o meu, quase desconhecido e sobretudo desambicioso. (. . . )

Estas circunstâncias pareceriam suficientes para me imporem um silêncio, ou modesto ou desdenhoso. Não o são, todavia. Eu tenho para falar dois fortes motivos. Um é a liberdade absoluta que a minha posição independentíssima de homem sem pretensões literárias me dá para julgar desassombradamente, com justiça, com frieza, com boa-fé. Como não pretendo lugar algum, mesmo ínfimo na brilhante falange das reputações contemporâneas, é por isso que, estando de fora, posso como ninguém avaliar a figura, a destreza e o garbo ainda dos mais luzidos chefes do glorioso esquadrão. Posso também falar livremente. (...)

A este primeiro motivo, que é um direito, urna faculdade, só, acresce um outro, e mais grave e mais obrigatório, porque é um dever, uma necessidade moral.

E esta força desconhecida que nos leva muitas vezes, ainda contra a vontade, ainda contra o gosto, ainda contra o interesse, a, erguer a voz pelo que julgamos a verdade, a erguer a mão pelo que acreditamos, a justiça. E ela que me manda falar. Não que a justiça e a verdade se ofendessem com V. Exa. ou com as suas apreciações.(...)

O que se ataca na escola de Coimbra (talvez mesmo V. Exa. o ignore, porque há malévolos inocentes e inconscientes), o que se ataca, não é uma opinião literária menos provada, uma concepção poética mais atrevida, um estilo ou uma ideia. Isso é o pretexto, apenas. Mas a guerra, faz-se à independência irreverente de escritores, que entendem fazer por si o seu caminho, sem pedirem licença aos mestres umas consultando só o seu trabalho e a sua consciência. A guerra faz-se ao escândalo inaudito duma literatura desaforada, que cuidou poder correr mundo ser o selo e o visto da chancelaria dos grão-mestres oficiais.( . . . )

Combatem-se os hereges da escola de Coimbra por causa do negro crime de sua dignidade, do atrevimento de sua rectidão moral, do atentado de sua probidade literária, da imprudência e miséria de serem independentes e pensarem pelas suas cabeças. E combatem-se por faltarem às virtudes de respeito humilde às vaidades omnipotentes, de submissão estúpida, de baixeza e pequenez moral e intelectual.

V. Exa. com a imparcialidade que todos lhe conhecemos, deve confessar que uma guerra assim feita, é não só mal feita, mas também pequena e miseravelmente feita. Mas é que a Escola de Coimbra cometeu efectivamente alguma coisa pior do que um crime - cometeu uma grande falta. Quis inovar!

Ora, para as literaturas oficiais, para as reputações estabelecidas, mais criminoso do que manchar a verdade com a baba dos sofismos (... ) é essa falta de querer caminhar por si, de dizer e não repetir, de inventar e não de copiar. Porquê? Porque todos os outros crimes eram contra as ideias: Haveria sempre um perdão para eles. Mas esta falta eram contra as pessoas: e essas faltas são imperdoáveis. (. . . )

V.Exa. fez-se chefe desta cruzada tão desgraçada e tão mesquinha. Não posso senão dar-me os pêsames por tão triste papel. Mas se eu, como homem, desprezo e esqueço, como escritor é que não posso calar-me; porque atacar a independência do pensamento, a liberdade dos espíritos, é não só ofender o que há de mais santo nos indivíduos, mas é ainda

levantar mão roubadora contra o património sagrado da humanidade - o futuro -. É secar as nascentes da fonte aonde as gerações futuras têm de beber. É cortar a raiz da árvore a que os vindoiros tinham de pedir sombra e segredo. (. . .) Para isso toda a independência de espírito, toda a despreocupação de vaidades, toda a liberdade de jugos impostos, de mestres, de autoridades, nunca será de mais. O mineiro quer os braços soltos para cavar buscando o ouro entre as areias grossas. O piloto quer os olhos desvendados para ler nos astros o caminho da nau por entre as ondas incertas. O sacerdote quer o coração limpo de paixões, de interesses, para aconselhar, guiar, julgar, imparcial e justo. O escritor quer o espírito livre de jugos, o pensamento livre de preconceitos e respeitos inúteis, a cotação livre de vaidades, incorruptíveis e intemerat ra, que ilude o vulgo, e desprezam a ideia, que custa muito e nada luz. São apóstolos do dicionário, e têm por evangelho um tratado de metrificação. Fazem da poesia o instrumento de suas vaidades.

Pregam o bem por uso e convenção literária, porque se presta à declamação poética, mas praticam o egoísmo por índole e por vontade.

Estes tais escusam da nobreza e da dignidade: têm a habilidade e a finura, para a obra que fazem, isso lhes basta. Mas a obra, Exmo. Snr., é que é uma obra vulgar: bem feita para agradar ao ouvido, mas estéril para o espírito. Soa bem mas não ensina nem eleva. Ora a humanidade precisa que a levantem e que a doutrinem. São, pois, necessárias outras e

melhores obras. (...) O grande espírito filosófico do nosso tempo, a grande criação original, imensa da nossa. idade, não passa de confusão e imbróglio desprezível para o professor de ninharias, que cuida, que se fustiga. Hegel, Stuart Mill, Augusto Compte, Herder, Wolff, Vico, Michelet, Proudhon, Litré, Feuerbach, Creuzaer, Strauss, Taine, Renan, Buchner, Quinet, a filosofia alemã, a crítica. francesa, o positivismo, o naturalismo, a história, a metafísica, as imensas criações da alma moderna, o espírito mesmo da nossa civilização... que se fustiga tudo isto e se ridiculariza e se derriba com a mesma sem-cerimónia com que ele dá palmatoadas nos seus meninos de 30, 40, 50 anos, de Lisboa, do Grémio, da Revista Contemporânea de Lisboa, do Grémio, da Revista Contemporânea! (...)    

Há uma coisa que o Snr. Castilho tomou à sua conta, que não deixa em paz, que nos prometeu destruir ... é a metafísica é o ideal ...

O ideal quer dizer isto: desprezo das vaidades- amor desinteressado de verdade; preocupação exclusiva do grande e do bom; desdém do fútil, do convencional; boa-fé; desinteresse, grandeza de alma; simplicidade; nobreza; soberano bom gosto e soberaníssimo bom senso . .. tudo isto quer dizer esta palavra de cinco letras - ideal. (. . . )

Paro aqui, Exmo. Snr. muito tinha eu ainda que dizer: mas temo no ardor do discurso, faltar ao respeito a V. Exa., aos seus cabelos brancos. (...)

V.Exa. aturou-me em tempo no seu colégio do Pórtico tinha eu ainda dez anos e confesso que devo à sua muita paciência o pouco francês que ainda hoje sei. (...)

Vejo, porém, com desgosto que temos muitas vezes de renegar aos vinte e cinco anos, do culto das autoridades dos dez. (. . .)

Levanto-me quando os cabelos brancos de V. Exa. passam diante de mim. Mas o travesso cérebro que está debaixo e as garridas e pequeninas coisas que saem dele confesso, não me merecem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V.Exa. precisa menos cinquenta anos de idade, ou então mais cinquenta de reflexão. É por estes motivos todos que lamento do fundo da alma não me poder confessar, como desejava, de V.Exa. nem admirador nem respeitador Antero de Quental.

Coimbra, 2 de Novembro de 1865

«diante das apaixonadas e bulhentas harmonias»

1856 – 1875:

Após a morte de Garrett e o exílio de Herculano para Vale de Lobos, chama a si um magistério intelectual sobre a jovem geração que, partindo da revista de poesia "O Trovador", julga radicar o seu ultra-romantismo no autor de "Os Ciúmes do Bardo" e de "A Noite do Castelo", e encontra na casa deste, a «sua Tíbur», o centro difusor. Transforma este convívio em uma «Sociedade do elogio mútuo» e leva aos limites a promoção de um nacionalismo poético - a que não escapa a própria obra, então ampliada e diversificada, de tradutor. O auge da sua influência é o também da própria decadência: contestado, envolve-se em duras e sucessivas polémicas com uma outra e novíssima geração, de que a célebre «Questão Coimbra» representa o princípio do fim, não sem a sagração oficial com título de Visconde.

Cercado de glória e do carinho de seguidores fiés, faleceu em 1875, em Lisboa.

 

Obras Principais:

Cartas de Eco e Narciso (1821);

A Primavera (1822);

Amor e Melancolia (1828);

A Chave do EnigmaA Noite do Castelo (1836);

Os Ciúmes do Bardo (1836);

A Felicidade pela Agricultura (1849);

Erro! Marcador não definido.Presbitério da Montanha (1844);

Quadros da História de Portugal (1838);

O Outono (1863);

Cartas de Eco e Narciso.

Num ritmo pretensamente pagão, revelam a influência do neoclassicismo que dominava entre nós ao tempo da primeira vitória liberal. Doravante, a grande importância de Castilho consistirá em exercer um vasto magistério literário, assimilando e exprimindo oportunamente as modas e as correntes publicamente mais viáveis.

"Amor e Melancolia"

Afastado do palco das operações onde se desenrolava a contra-revolução Miguelista e as lutas liberais, refugiado numa recôndita freguesia da beira, onde o irmão era pároco, conseguiu encontrar o tão almejado sossego, propício à reflexão e à escrita.

De um longo namoro, que em 1834 se consumou pelo casamento, extraiu o melhor de um livro de pequenas peças líricas sentimentais pré-românticas: Amor e Melancolia (1828).

Entretanto, capta no ar os novos gostos literários; assimila a métrica, o estilo de Camões e D. Branca, os ambientes de fantasmagoria e truculência cavaleiresca da novela inglesa ou do melodrama e escreve

Os Ciúmes do Bardo e a Noite do Castelo, que, juntamente com o projectado Ermitão da Arrábida, constituiriam a trilogia da paixão, da paixão amorosa ultra-romântica, rematando no crime, no suicídio ou na loucura.

A publicação dos dois poemas em 1836 parece ter contribuído, juntamente com as traduções de Walter Scott, dos pré-românticos franceses, ingleses, alemães e com as novelas de Herculano, para a difusão entre nós do ultra-romantismo medievista.

Neste mesmo ano e sob o novo clima da Revolução Setembrista, traduz e prefacia com acentos de republicanismo Palavras de um Crente de Lamennais, obra cujo estilo Herculano imitou na Voz do Profeta e que tanto contribuiu para ligar ao cristianismo as tendências humanitárias do romantismo liberal.

Esta fase em que Castilho, literariamente sob a influência de Herculano, assimila a corrente romântica, numa versão sentimentalmente formalista, remata com os Quadros Históricos de Portugal (1839).

Descreve em estilo pretensamente rico, vernáculo, filintista, grandes figuras medievais portuguesas, os seus actos mais ou menos

lendários de alta bizarria heróica e moral.

A morte da primeira esposa e do desvelado irmão Augusto marca uma pausa na sua carreira literária, que mudara de rumo. A partir de1842, a direcção da Revista Universal Lisbonense, uma das mais importantes da nossa época romântica, permite-lhe exercer uma influência considerável, que transborda dos meios restritamente literários. Essa influência vai inteiramente ao encontro da reacção tradicionalista que então se fazia sentir

sob os Cabrais; a revista arvora-se em guardiã dos bons costumes, da moralidade e de um temperado eclectismo literário que se arrima aos clássicos eternos. É talvez ao prestígio assim alcançado e ao cunho anódino da sua obra que se deve a homenagem prestada em 1844 pelo grupo de jovens líricos de Coimbra que colaboravam em O Trovador, sob

orientação de João de Lemos.

Castilho reforça esta reacção classicizante com a edição das suas Escavações Poéticas (1844), que do Romantismo retêm apenas o gosto dos temas folclóricos e de uma certa expressão directa, e com a colaboração que presta ao irmão José numa antologia que este dirige no Brasil, a Livraria Clássica Portuguesa. Em 1846 ridiculariza os movimentos populares com uma Crónica certa e muito verdadeira da Maria da Fonte.

ESCAVAÇÕES POÉTICAS


OS TREZE ANOS


(Cantilena)


Já tenho treze anos,
que os fiz por Janeiro:
Madrinha, casai-me
com Pedro Gaiteiro.

Já sou mulherzinha,
já trago sombreiro,
já bailo ao Domingo
com as mais no terreiro.

Já não sou Anita,
como era primeiro;
sou a Senhora Ana,
que mora no outeiro.

Nos serões já canto,
nas feiras já feiro,
já não me dá beijos
qualquer passageiro.

Quando levo as patas,
e as deito ao ribeiro,
olho tudo à roda,
de cima do outeiro.

E só se não vejo
ninguém pelo arneiro,
me banho co’as patas
Ao pé do salgueiro.

Miro-me nas águas,
rostinho trigueiro,
que mata de amores
a muito vaqueiro.

Miro-me, olhos pretos
e um riso fagueiro,
que diz a cantiga
que são cativeiro.

Em tudo, madrinha,
já por derradeiro
me vejo mui outra
da que era primeiro.

O meu gibão largo,
de arminho e cordeiro,
já o dei à neta
do Brás cabaneiro,

dizendo-lhe: «Toma
gibão, domingueiro,
de ilhoses de prata,
de arminho e cordeiro.

A mim já me aperta,
e a ti te é laceiro;
tu brincas co’as outras
e eu danço em terreiro».

Já sou mulherzinha,
já trago sombreiro,
já tenho treze anos,
que os fiz por Janeiro.

Já não sou Anita,
sou a Ana do outeiro;
Madrinha, casai-me
com Pedro Gaiteiro.

Não quero o sargento,
que é muito guerreiro,
de barbas mui feras
e olhar sobranceiro.

O mineiro é velho,
não quero o mineiro:
Mais valem treze anos
que todo o dinheiro.

Tão-pouco me agrado
do pobre moleiro,
que vive na azenha
como um prisioneiro.

Marido pretendo
de humor galhofeiro,
que viva por festas,
que brilhe em terreiro.

Que em ele assomando
co’o tamborileiro,
logo se alvorote
o lugar inteiro.

Que todos acorram
por vê-lo primeiro,
e todas perguntem
se ainda é solteiro.

E eu sempre com ele,
romeira e romeiro,
vivendo de bodas,
bailando ao pandeiro.

Ai, vida de gostos!
Ai, céu verdadeiro!
Ai, Páscoa florida,
que dura ano inteiro!

Da parte, madrinha,
de Deus vos requeiro:
Casai-me hoje mesmo
com Pedro Gaiteiro.

Escavações Poéticas; 1844

 

 

 

A FELICIDADE PELA AGRICULTURA

A crise do cabralismo e a revolução europeia de 1848 vão

encontrá-lo em S. Miguel. Surge-nos então outro Castilho: o

Castilho utopicamente progressivo membro influente da

Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, redactor de O

Agricultor Micaelense, cujos artigos, editados depois em

volume sob o título de Felicidade pela Agricultura (1849),

pregam as excelências do trabalho agrícola, a fraternidade agrária entre as classes sociais, a fundação de sociedades de agricultores que tivessem como primeiro objectivo a instrução e a organização do crédito mutualista

assentando sobre tais bases uma reforma do País, que abrangeria o exército, o próprio regime representativo partidário, a jerarquia religiosa, eliminaria a inferioridade política e civil das mulheres, etc. Tudo isto sem detrimento

das instituições políticas e religiosas vigentes, antes delas obtendo a devida vénia e apoio...

Traduções:

Dedicou-se à tradução de obras em latim, francês e inglês tais como:

A Lírica, de Anacreonte;

Amores, de Ovídio;

Geórgicas, de Virgílio;

Médico à Força, TartufoO Avarento, Doente de Cisma, Sabichonas e Misantropo, de Molière;

O Sonho de uma Noite de Verão, de Shakespeare;

Fausto, de Goethe;

D. Quixote de La Mancha, de Cervantes.

 

A CHAVE DO ENIGMA

O tema da solidão, tão actual nos nossos dias é aqui abordado,

oferecendo-nos uma visão positiva, como espaço privilegiado, propício à reflexão, numa comunhão perfeita entre o Homem e a Natureza.

Citação:
"Tem a solidão isto de comum com o silêncio e a escuridade: e pleto de existências imprevistas e apropriadas.

Que admira? A solidão medita, e a meditação cria. Os sentidos pastam só no que lhes oferecem a natureza, a fortuna, o acaso: a divindade interior, a alma, tem comércios inefáveis com o íntimo e ignorado. S. João, entre os nevoeiros de Patmos, divisa uma Jerusalém celeste; nas cogitações de Sócrates, aparece o Omnipotente; nos êxtases de Platão. reflexos da Trindade; nos cálculos taciturnos de Galileu, firma-se o céu, volteiam as plantas: Colombo faz surgir do fundo dos mares a América; Leverrier, mais globos no espaço; Fulton, o hipógrafo, o Pégaso do vapor, magia, poesia, potência escrava do Homem, e dominadora, primeiro dos oceanos, depois dos continentes e amanhã, talvez, dos ares; a solidão cismadora dá a Eneida a Virgílio, mostra a Lineu os amores e o sono das plantas, a Dante o Inferno, a Fourier o paraíso terrestre, a Newton e a Laplace o código dos astros, a Daguerre os talentos artísticos do Sol, ao Gama o caminho do Oriente, ao soldado Camões o da imortalidade, põe na mão de Gutembergue a chave do cofre das ciências, na de Vicente de Paulo a da caridade, na de Say a da riqueza pública, na de Pestalozzi e Froebel a da escola séria e fecunda.

Arquimedes, a sós com a natureza e com o seu génio, descobre os meios de destruir e incendiar a frota romana. Absorto em suas reflexões criadoras, no seu gabinete, como num antro, não sente o estrondo da cidade, já senhoreada dos inimigas; não acorda à voz do soldado de Marcelo, que, de espada desembainhada, lhe ordena que o siga; sem o sentir, é degolado. Cai a grande cabeça, irmã entre irmãs, no meio das esferas celestes que está arquitectando. Só de tão extraordinária concentração podiam brotar os seus tão extraordinários inventos e descobrimentos.

Lavoisier, outro dos martirizados pelo materialismo descrente e brutal, depois de haver testado ao mundo a mais opulenta herança científica, condenado ingrata e cegamente á guilhotina, que é o que pede aos verdugos revolucionários, seus juízes? Uma dilação de quinze dias. Só uma dilação! Só de quinze dias! Para quê? Para concluir trabalhos úteis à Humanidade, que neste momento o desconhece. Rematados eles, já não terá pena de morrer. Recusam-lha. Então, caminha, sereno, a depor no cadafalso uma cabeça, maior, talvez. que a de Arquimedes, e ainda na véspera coroada de loiros pelo Liceu.

Tanto a actividade fecundante, recolhida por instinto para os penetrais mais sagradas do ânimo, donde se conversa em êxtases com Deus e com a Natureza, com o pai omnipotente e com a filha formosíssima, nossa irmã, fica inacessível aos maiores cataclismos externos, às catástrofes das Siracusas, ao caos, providencial, porém medonho, de uma revolução francesa!

O homem que nasce pertencente à escassa família deste naturalista, pai da química, e daquele geómetra, pai da mecânica, mesmo com os braços cruzados sobre o peito, mesmo com os olhas fechados, mesmo dormindo e sonhando, está servindo como operário; mas, abaixo dele, há ainda, não menos veneráveis, os prestigiosos cismadores do mundo da Arte, mundo não menor, nem talvez, em última análise, menos útil que o da Ciência.

André Chénier, espécie de Lavoisier da poesia, convocado também para o festim da morte, não é das prazeres efémeras da existência que leva saudades: bate apaixonadamente raivoso na fronte, porque sente que se lhe estava ali dentro formando, como em cérebro olímpico, uma nova musa gentilíssima. Quem lha revelara? A meditação solitária, que sabe tudo e tudo profetiza.

Boníssima solidão! Tu és para a Sociedade o que as tuas montanhas são para os vales: nas tuas entranhas se filtram. dos teus recôncavos rebentam os génios possantes e profundos que vão derramar por longe a fertilidade. Mas tu não és só mãe às torrentes caudais: uma fontinha entre lapas, desconhecida, não se goza menos do teu favor. Sobre o pouco liberalizas dons, como sabre o muito; próvida para o imenso, próvida para o limitada. Solidão, Egéria das almas eleitas! Solidão, buscada por Cristo, abraçada por Jocelyn, adorada por Petrarca, explorada em tuas minas de oiro por Zimmermann, inspiradora de Volney, de Rousseau, do Infante de Sagres, de todas as videntes, de todos os descobridores, de todos os inventores, de todos os Baptistas! Solidão, ninho das rolas como das águias, perdoa, se eu não sabia ainda apreciar-te!"

 

Em conclusão:

        

"Uma peregrinação pelas obras do "Mestre" António Feliciano de Castilho leva-nos à perplexidade sobre a versatilidade da inteligência e espírito desse homem de letras que podemos classificar de artista.

Se no seu tempo estivesse na moda a palavra "sobredotado" seria António Feliciano de certo assim classificado.

Não podemos referenciar obras, pois todas elas se baseiam num estilo próprio e único. A actualidade dos temas e diversificação são admiráveis.

Tão depressa observamos Castilho a vergar-se sobre a Instrução, como a Arquitectura, como a Ciência de Métrica, como a estudar métodos para facilitar a Instrução a quem quer aprender, como louvando Reis e Princesas, como lutando contra os Políticos seus contemporâneos, expondo as suas ideias e pugnando por elas, como sonhando romanticamente e cantando os seus sonhos através de poesia difícil e por vezes mal interpretada.

Mas um clima de esperança sempre o envolveu, rodeando-o de uma luz, que o destino arrebatou."

Queremos com este singelo trabalho homenagear o grande vulto das letras e da cultura portuguesa que foi António Feliciano de Castilho e simultaneamente, regozijar-nos por termos ao nosso dispor um tão rico e variado espólio literário.

 

 

 

António Feliciano de Castilho